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Aposta na retomada

Edição 292

A asset do BNP Paribas acredita que a reversão de tendências já começou e prepara o lançamento de novo fundo de infraestrutura

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BNP Paribas - Recursos sob gestão

A agenda de um executivo top de linha é sempre olhada com uma pontinha de inveja pelas pessoas que estão longe dessa posição, entre outros motivos pelos seus compromissos internacionais que incluem viagens frequentes para cidades glamourosas como Nova York, Londres , Paris, Frankfurt etc. Mas pouca gente se lembra que, nessas cidades, muitas vezes eles nem chegam a ver a cor das ruas e passam a maior parte do tempo fechados em reuniões exaustivas antes de voltarem rapidamente ao hotel, arrumarem as malas e pegarem correndo um táxi para o aeroporto onde esperarão algumas horas antes de embarcar em voos que durarão mais algumas horas até chegarem aos seus destinos finais. Embora, francamente, é melhor correr para pegar um táxi do La Défense ao Charles de Gaulle, em Paris, do que do Bom Retiro à Cumbica, em Guarulhos.
A agenda do principal executivo do BNP Paribas Asset Management, Luiz Carlos Sorge, está mais ou menos assim. No último ano ele tem voado a Paris frequentemente para participar das reuniões do board da empresa, onde são discutidas as estratégias do grupo para as várias unidades espalhadas pelo mundo e onde é decidido quem receberá investimentos e quem ficará na geladeira. Ele conseguiu, na última reunião do board, aprovar investimentos de R$ 25 milhões para serem colocado como recursos próprios num novo fundo de infraestrutura a ser lançado pela gestora no Brasil, que receberá outros R$ 25 milhões do Banco de Desenvolvimento da América Latina, o CAF.
O fundo, um FIDC a ser lastreado em debêntures de projetos de infraestrutura, deve ser aprovado pela CVM no começo do segundo semestre. Seu foco serão projetos principalmente de logística e energia, mas também de portos, aeroportos etc, que o board de Paris espera que comecem a fazer sentido para os investidores brasileiros a partir do momento em que a taxa de juros local declinar para a casa de um dígito e a inflação estiver de fato sob controle. A meta de rentabilidade do fundo é IPCA mais um prêmio, ainda a ser definido, mas que deve superar o atuarial dos investidores institucionais.
Além dos aportes iniciais do próprio BNP Paribas e do CAF, que ficarão com cotas subordinadas do fundo, já foram iniciadas conversas para aportes também do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e alguns institucionais. O fundo deve começar com R$ 300 milhões e logo chegar a R$ 500 milhões. “Mas podemos ir a R$ 1 bilhão”, diz confiante Sorge. Segundo ele, o fundo de infraestrutura será oferecido principalmente aos clientes private e institucionais do grupo, na modalidade de cotas sênior, com a expectativa de que os institucionais possam absorver cerca de 30% da colocação.
Para o consultor da Lockton Brasil, Lauro Araújo, a estratégia do BNP Paribas deve encontrar alguma dificuldade para avançar, principalmente por conta da alta concentração dos institucionais em títulos longos, como NTNBs 2040 e 2050. “Quase todo o estoque dos recursos dos fundos de pensão está alocado no longo prazo, então não sei se nesse momento eles terão apetite para investimentos em infraestrutura”, afirma Araujo. “No médio prazo com certeza eles vão ter que buscar esses ativos para cobrir seu atuarial, mas acho que vai demorar um pouco mais”.

Reversão de tendência – As análises do board internacional do BNP Paribas Asset Management, segundo Sorge, são de que o Brasil já iniciou uma fase de reversão de tendências em relação à crise econômica que começou no início de 2015. Foram dois anos onde praticamente todos os indicadores estiveram muito ruins, e pioravam a cada mês, começando com o alto endividamento das famílias, a baixa oferta de crédito, queda no consumo, estoques elevados, forte ociosidade nas indústrias e lucros empresariais abaixo da Selic, todos desencorajando investimentos em novas plantas e em produtividade. Ancorando esses indicadores ruins estavam taxas de inflação e de desemprego elevadas e queda do PIB, que acabou fechando no negativo por dois anos seguidos, 2015 e 2016. Em todos esses aspectos as análises do BNP Paribas estiveram mais pessimistas do que a média do mercado, nos dois últimos anos. Agora, no entanto, começam a mudar o sinal e se tornarem mais otimistas do que a média do mercado. “Acho que ainda temos que carregar o peso da negatividade de todos esses eventos, mas a mudança de direção já começou”, indica Sorge. “Acreditamos que a reversão de tendências se confirmará nesse segundo semestre e 2018 deve ser um ano de retomada das atividades”, diz.
Além de um cenário interno em recuperação, ele avalia que o cenário externo também é mais favorável à imagem do Brasil por conta de problemas enfrentados nos últimos meses por outros emergentes como África do Sul e Turquia, que vivem crises políticas e tensões sociais nas ruas, e o México, que ainda tenta dimensionar o real estrago que a administração de Donald Trump, nos Estados Unidos, pode trazer à sua economia. O Brasil, que nos últimos anos esteve no fim da fila dos emergentes na preferência dos grandes investidores internacionais, começa a recuperar prestígio com a aprovação da PEC que limita os gastos do governo, confirmada no final do ano passado, e do avanço das reformas previdenciária e trabalhista. “Acho que a confirmação dessas reformas pode trazer boas novidades para o Brasil”, analisa Sorge.
Ainda de acordo com ele, a combinação de melhoras nos dois cenários, o interno e o externo, com a expectativa de queda da taxa de juros para um dígito ao final do ano está levando a asset do BNP Paribas, atenta à demanda por produtos de mais risco vinda dos grandes investidores, a ampliar sua grade de produtos com novos multimercados e fundos de ações. “A demanda por essas classes de ativos crescerá acima da média do mercado”, avalia Sorge sem dar detalhes dos novos fundos a serem criados. Segundo ele, a gestora também prepara o lançamento de um fundo de fundos de private equity, orientado principalmente para projetos relacionados a um novo ciclo de crescimento e desenvolvimento.
Lauro Araújo, da Lockton, vê os multimercados e a renda variável como a primeira etapa na migração dos fundos de pensão, dos títulos públicos para mais risco. “Primeiro os multimercados de médio risco e só depois os mais arriscados”, delimita. Ele se diz impressionado com a concentração das carteiras em NTNBs longas. “Acho que o dinheiro dos fundos de pensão vai ficar preso nessas alocações passivas por muitos anos”, diz. “O que pode buscar algum risco é o dinheiro novo que entrar, porque o estoque está prisioneiro dessas carteiras”.

Crescimento – A gestora do BNP Paribas tinha, no final do primeiro trimestre do ano, um total de R$ 44 bilhões sob gestão. “Nos últimos anos, apesar da crise, nós conseguimos crescer”, afirma Sorge. Segundo ele, contribuíram para esse crescimento dois tipos de fatores: externos, que vão desde a saída de competidores como o HSBC do mercado até problemas de concorrentes com eventos de crédito relacionados principalmente à quebra do fundo Silverado; e internos, que incluem ampliação de equipe com a contratação de 10 profissionais nos últimos 3 anos, passando de 45 para 55 pessoas, além de investimentos na melhoria dos processos de controle de risco, de alocação e de governança. “Nosso foco nesses últimos anos tem sido na preservação do capital, buscando oportunidades mas sempre colocando em primeiro plano a segurança dos investimentos”, enfatiza o CEO da asset. “Parece óbvio, mas nem todos fazem isso”.
Dois fundos da asset comprovam na prática essa filosofia, tendo ambos recebido o selo de Excelentes (bola verde) no último ranking “Melhores Fundos de Institucionais”, publicado por esta revista com análises da consultoria Luz Soluções Financeiras. O primeiro é o BNP Match, um fundo DI de 7 anos com patrimônio líquido de R$ 5,3 bilhões, que rendeu 102,36% do CDI em 36 meses, 102,14% em 24 meses e 101,58% no acumulado de 12 meses até 31 de dezembro de 2016. E o BNP Action, um fundo de ações de retorno total com PL de R$ 450 milhões, que registra 236,96% do Ibovespa em 36 meses, 176,34% em 24 meses e 60,69% no acumulado de 12 meses até 31 de dezembro de 2016.
Ainda de acordo com Sorge, a asset planeja chegar ao final de 2017 com R$ 50 bilhões sob gestão, que representaria um crescimento de 16,27% sobre os R$ 43 bilhões do fechamento de 2016. Devem contribuir para isso os novos produtos a serem lançados, incorporando mais risco ao portfólio dos clientes, principalmente através de multimercados e fundos long and short, que irão atender as demandas que já estão se delineando e devem se tornar mais claras quando a taxa de juros descer a um dígito.


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