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Edição 292

Multimercados fecharam para captação nos últimos meses por conta do patrimônio, mas alguns seguem abertos para fundações 

Devido à performance destacada e aumento expressivo de seus patrimônios nos últimos doze a dezoito meses, alguns fundos multimercados de gestores independentes optaram pelo fechamento para novas captações enquanto reavaliam a capacidade de gerir volumes maiores. São fundos que foram beneficiados pelos bons rendimentos dos mercados de juros, câmbio e bolsa e que, por essa razão, atraíram uma grande leva de recursos de investidores em busca de diversificação e alpha para suas carteiras, como é o caso da Mauá, Garde, Adam e Kapitalo.
A Mauá Capital fechou em 7 de abril seu fundo Macro, por conta do crescimento expressivo do PL do fundo e da percepção dos gestores sobre o limite de sua capacidade de gerir um volume maior do que os cerca de R$ 1,3 bilhão atuais, pelo menos no momento, explica Marcelo Lubliner, sócio responsável pela área de distribuição e produtos da asset. Entretanto, durante o processo de fechamento do fundo, quando entrava em contato com os investidores interessados para avisar previamente sobre a decisão, a Mauá se deparou com uma dinâmica diferente dos institucionais no processo de seleção dos gestores multimercados.
“Notamos que diversos fundos de pensão estavam fazendo seleção de multimercados e nosso fundo estava avançando, mas como esse processo pode levar de seis a oito meses não daria tempo de definirem antes do nosso fundo fechar”, afirma Lubliner. Diante desse cenário, os diretores da asset optaram por manter disponível a estratégia do Macro com a abertura de outro veículo para acomodar esse tipo de situação, o Macro 2 FIC. “Apesar do Macro FIC estar fechado, o novo veículo foi criado justamente para atender essas situações extraordinárias do universo institucional”, diz o sócio da Mauá. Cerca de três semanas após sua abertura, o Macro 2 já havia recebido aproximadamente R$ 20 milhões de investimento de dois fundos de pensão.
Sobre o quanto o novo fundo ainda poderá receber de investimentos de institucionais, no entanto, o sócio da Mauá prefere não cravar um número. “Não é uma ciência exata, não definimos um número. Nesse momento nossa preocupação era dar uma parada, fazer alguns incrementos na área de gestão para estar confortável em gerir recursos adicionais”, conta Lubliner. “Conforme o processo for avançando, dependendo de sua velocidade, vamos tomar a decisão e fechar o Macro 2”, acrescenta o executivo da gestora.
Sobre o incremento na área de gestão, o sócio da Mauá fala que, embora haja uma preocupação em manter a essência da casa, recentemente foram contratados três novos profissionais para ter uma compreensão mais profunda de outros mercados e regiões que influenciam os ativos de juros e moedas, os mais importantes para as estratégias da asset. Foram contratados Guilherme Sbagia, como portfolio manager internacional, e Ângelo Polydoro e Fernando Friaça, como economistas. O primeiro foi anteriormente sócio e gestor da área internacional na Garde Asset, gestor de moedas na Advis, responsável por flow-trading de moedas no Itaú BBA e gestor de carteiras offshore na Hedging-Griffo, enquanto Polydoro foi economista do Banco Brasil Plural e da SPX Capital e Friaça economista na Bozano Investimentos e na MVP Capital. “Queremos atuar mais nos mercados internacionais, até porque vai nos ajudar a entender o estrangeiro vis-à-vis o Brasil. O estrangeiro que investe no país faz preço nos ativos brasileiros”, pondera o executivo.
Em 2016 o Mauá Macro rendeu 200% do CDI, desempenho que é uma das principais razões para a boa captação do fundo, regra que também vale para toda indústria de multimercados de maneira geral no passado recente, beneficiada pelos fortes movimentos de fechamento da curva de juros, e de valorização no câmbio e na renda variável ao longo dos últimos meses.

Garde – A Garde Asset, em setembro do ano passado, já havia tomado decisão semelhante à da Mauá, quando fechou para captação seu multimercado D´Artagnan, mas o manteve aberto para fundos de pensão. O fundo soma um patrimônio de R$ 4,2 bilhões. “Temos vários FICs que investem na mesma estratégia, fechamos a maioria para o público em geral, mas o destinado às fundações permanece aberto e não tem nenhuma previsão de fechamento”, diz Marcelo Giufrida, CEO da Garde. O FIC destinado exclusivamente às entidades tem R$ 240 milhões sob gestão, mas a exposição total dos fundos de pensão, que também tem posições em outros FICs da estratégia da Garde, chega aos R$ 600 milhões.
“Sabemos que as entidades têm um processo de decisão mais formal, que passa por várias instâncias dentro da fundação, o que o torna mais lento”. Além disso, Giufrida nota que embora algumas entidades já atuem com multimercados estruturados há um bom tempo, existe ainda uma parcela razoável de fundações que está dando os primeiros passos no segmento. “Por essas razões resolvemos deixar o fundo aberto para esse público”.
O D´Artagnan existe desde o fim de 2013 e nasceu junto com a própria gestora. Em doze meses, encerrados em abril, o rendimento do veículo é de aproximadamente 136% do CDI, que sobe para 148% desde seu início. “Não houve nenhuma estratégia dominante responsável pela rentabilidade do fundo, mas as mais relevantes foram câmbio e cupom de inflação”, diz Giufrida.
Além da boa performance, o CEO da Garde avalia que outro fator que também contribuiu para a forte captação do multimercado foi a ampliação no número de parcerias com a adição de novos canais de distribuição. E nesse universo de parceiros de distribuição, ressalta Giufrida, ocorre um processo relativamente comum de reforço de alocação nos gestores que estão apresentando desempenho destacado. “Outro ponto para o crescimento do patrimônio é o próprio tamanho que o veículo atingiu. Alguns investidores têm em sua política manter uma certa proporção dentro do veículo, então à medida que ele foi crescendo, abriu espaço para quem já tinha alocação reforçar um pouco mais”. Às vésperas do fechamento do D´Artagnan o executivo observou também uma aceleração no ritmo da captação, com os investidores se mobilizando por saber que logo o veículo não estaria mais disponível. “O fundo acabou crescendo mais rápido nesse período”.

Adam – Um dos casos mais emblemáticos do mercado brasileiro nos últimos anos é o da Adam Capital, gestora que iniciou suas operações em dezembro de 2015 e que tem como sócio e gestor principal Márcio Appel, que esteve de 2008 a 2015 como responsável pela gestão dos fundos do Safra. A Adam lançou em abril de 2016 seu fundo Macro, que foi fechado em 25 de janeiro de 2017 após ter alcançado PL de R$ 9 bilhões, que hoje está em R$ 10,5 bilhões por conta de seu rendimento acumulado no período, de 27,9% até abril. “Fechamos o fundo basicamente porque tínhamos uma restrição de capacidade de gestão em função dos juros locais”, explica André Salgado, sócio fundador da Adam que trabalhou com Appel no Safra, onde foi diretor da corretora de 2010 a 2013. Em agosto de 2016 a Adam já havia fechado seu fundo Advanced, quando o veículo, que hoje acumula R$ 1,6 bilhão, atingiu R$ 1 bilhão. Os dois fundos seguem a mesma estratégia, calcada em juros, moedas e bolsa, mas o Advanced tem liberdade para assumir posições mais alavancadas do que o Macro.
Com seus dois multimercados fechados para captação, a Adam prepara para o final de junho o lançamento de seu terceiro fundo nessa modalidade, o Strategy. O novo veículo terá duas diferenças em relação aos anteriores – não terá exposição aos juros locais, e a posição em renda variável global será via gestão ativa, e não mais por meio de fundos de índices, após a contratação de dois gestores sêniores, Ruy Alves, da JGP, e Fernando Gonçalves, da Gávea. O objetivo é ampliar a geração de alpha em equities. Em um primeiro momento a estratégia ativa em ações globais estará disponível apenas no novo multimercado da Adam, mas no futuro ela deve estar presente também nos demais fundos da casa.
“A gestão do fundo será muito parecida com a dos outro produtos, centralizada com o Márcio Appel”, comenta Salgado. O fato de o Strategy não ter os juros locais em sua composição não vai fazer grande diferença para o seus resultados, já que se trata de um ativo com alta correlação com o câmbio, que terá espaço no portfólio, explica o sócio da gestora. “Fizemos alguns estudos substituindo os juros locais pelo dólar/real e verificamos uma correlação muito grande, por isso os fundos serão bastante parecidos”.
Por não ter a mesma restrição de liquidez dos fundos anteriores, já que não vai contar com o limitador dos juros locais, Salgado acredita que o Strategy será o maior fundo da Adam, com capacidade de gestão de até R$ 20 bilhões. O executivo ressalta que os fundos Macro e Advanced não teriam problemas para honrar eventuais resgates de investidores, já que o prazo para recebimento dos dois é relativamente longo, de 30 e 60 dias. “Por outro lado, queremos ter agilidade para mudar as posições se o cenário mudar, e já estamos com uma exposição grande no mercado de juros locais, com aproximadamente R$ 12 bilhões”.
Pelo fato de os dois multimercados da Adam terem fechado rapidamente, nem todas as fundações que tiveram interesse nos produtos conseguiram entrar. “O processo de avaliação dos fundos de pensão é mais lento, mas mesmo assim, como algumas fundações já acompanhavam o trabalho do Márcio desde o Safra, muitas conseguirem ‘peitar’ o processo interno de avaliação por entender que valia a pena investir independentemente do processo”. Dos atuais R$ 12,5 bilhões nos dois multimercados da Adam, cerca de R$ 600 milhões são de fundos de pensão. A maioria das fundações que conseguiu aplicar nos fundos são patrocinadas por empresas privadas, que contam com um processo de decisão de investimento mais ágil na comparação com seus pares patrocinados por estatais, segundo Salgado. Para o Strategy, o sócio da Adam acredita que a adesão de fundos de pensão será maior, até porque o regulamento do fundo será adaptado às restrições impostas pela Resolução 3.792 aos multimercados estruturados justamente para facilitar o processo de avaliação dentro das fundações.

Kapitalo – A Kapitalo Investimentos, formada em 2009 por egressos do Banco BBM, também fechou recentemente seus multimercados para captação. Os dois fundos da asset seguem a mesma estratégia e são reconhecidamente de alta alavancagem – o Kappa, fechado no fim de março, com patrimônio de R$ 1,9 bilhão, tem um objetivo de volatilidade de 7%, que chega a 12,5% no caso do outro fundo da casa, o Zeta, fechado para novas captações desde julho de 2016, e que soma um PL de R$ 1,7 bilhão. “O Zeta já fechamos e abrimos algumas vezes, o Kappa foi a primeira vez que fechamos. O objetivo com isso é avaliar nossa capacidade de gerir adequadamente os novos volumes sob administração”, explica João Pinho, sócio fundador da Kapitalo. “Isso não significa que os fundos vão ficar fechados para sempre, cogitamos reabri-los em algum momento após nos certificarmos de que temos capacidade de subir mais um degrau no volume de captação”. Nos doze meses encerrados em março, o Kappa rendeu 181,6% do CDI, e o Zeta, 304,6% do benchmark.
O principal ponto de avaliação quando os fundos da Kapitalo são fechados é verificar se há liquidez suficiente entre os ativos com os quais os gestores operam, uma vez que a casa atua com uma quantidade relativamente pequena de ativos, em alguns casos com baixa liquidez. “Trabalhamos com ativos como cupom cambial e curva de juros no Brasil, que mesmo nos prazos maiores são menos líquidos, por isso precisamos ter certeza que quando temos um crescimento mais significativo do volume sob gestão, como ocorreu no passado recente, o mercado tenha liquidez suficiente para que a gente consiga rentabilizar o investidor”, pontua Pinho.
A Kapitalo avalia lançar um novo fundo, em reais, mas com o foco no mercado internacional, estratégia que já responde por 1/3 do portfólio dos multimercados hoje na grade da asset. O lançamento do novo produto, no entanto, só deve acontecer após encerrada a fase de consolidação no qual ainda estão os dois fundos já existentes da gestora. Outro produto novo que a Kapitalo também cogita, que poderia ser destinado às fundações, é um feeder exclusivo que seguiria a mesma estratégia dos demais veículos da gestora. “Pensamos sobre produtos novos, mas não temos nada definido para o curto prazo”, afirma o sócio da Kapitalo.
A participação dos fundos de pensão no Kappa e no Zeta é pequena. Embora tenha observado uma demanda grande pelos produtos por parte desses investidores nos últimos meses, eles não tiveram tempo para alocar nos fundos antes de seus fechamentos. “O ciclo dos ‘hedge funds’ não é condizente com o ciclo das fundações, que precisam de mais tempo para tomar suas decisões, enquanto a decisão de abrir ou fechar os fundos é muito rápida”, fala Pinho.
O sócio da Kapitalo cita o caso de uma entidade, relativamente grande, que estava em due diligence quando o fundo da casa foi fechado e não conseguiu encerrar o processo a tempo de fazer a alocação. A fundação voltou a entrar em contato mesmo após o fechamento do fundo e concluiu a análise junto à asset, deixando-a aprovada para uma eventual reabertura do veículo. “Eles perceberam que o ciclo desses fundos mais alavancados é muito rápido, e por isso optaram por deixar na prateleira já aprovado pelo conselho. Achei uma decisão muito diligente da parte deles, e acredito que deveria ser um procedimento comum para aqueles que gostam do segmento de fundos com mais risco, senão o investidor corre o risco de perder a oportunidade novamente se o fundo for reaberto”.


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