Busca

Disputa pelo crédito

Edição 292

Gestores especializados assediam os fundos de pensão para negociar carteiras de créditos inadimplentes 

Os fundos de pensão, com carteiras de crédito contaminadas por calotes, estão sendo cortejados fortemente por empresas que atuam no nicho de recuperação de créditos inadimplentes. Após a mais severa crise de crédito ter abatido muitas empresas no país, derivada da recessão e dos desdobramentos de escândalos como o da Lava Jato, as fundações viram o nível de calotes em suas carteiras saltar e ameaçar os seus balanços. Entre as opções para reverter essas perdas, a venda ou cessão desses créditos para gestores especializados em “ativos estressados” ainda é um movimento nascente, mas está crescendo e deve ganhar tração daqui para a frente, avaliam especialistas.
“Temos visitado fundos de pensão para começar a tratar desse assunto. A venda de carteiras ainda é incipiente, mas acho que é um mercado natural”, diz Alexandre Câmara, sócio do BTG Pactual. Após vender a Recovery no ano passado para o Itaú Unibanco, o BTG voltou ao mercado de recuperação de crédito com a criação da Enforce, que absorveu a carteira de créditos vencidos do próprio banco com valor de face de cerca de R$ 3 bilhões, além de 204 imóveis “estressados” (com problemas judiciais ou contas inadimplentes), com potencial de mercado de R$ 820 milhões
Este é um mercado que tem atraído o interesse de cada vez mais instituições financeiras por causa da alta taxa de retorno que o negócio pode proporcionar. Haja vista a própria compra da Recovery pelo maior banco privado do país, um ativo que atraiu o interesse de diversos compradores, e o retorno do BTG após ter vendido a empresa de recuperação de créditos no auge dos problemas causados pela prisão de seu ex-controlador, André Esteves. O tamanho do mercado de crédito inadimplente no Brasil é estimado em cerca de R$ 500 bilhões. “De 2014 para cá, a crise fez com que a venda de carteiras deixasse de ser uma opção e se tornou uma necessidade, a fim de liberar ativos dos balanços para serem cobrados por quem sabe fazer isso”, afirma Godofredo Barros, presidente da Ipanema Credit Management, gestora especializada na aquisição e administração de créditos vencidos com R$ 15 bilhões sob gestão em valor de face.
O presidente da Ipanema avalia que há um estoque de crédito vencido ainda grande para vir a mercado, mas que esse movimento deve ser paulatino. Ele lembra que além do crédito concedido pelo sistema financeiro (bancos têm um estoque de pouco mais de R$ 3 trilhões), há o financiamento por meio do mercado de capitais, composto por ativos como debêntures, certificados de recebíveis agrícolas e imobiliários, letras financeiras e etc. Para se ter uma ideia do cenário, os pedidos de recuperação judicial por parte de empresas bateram recorde histórico em 2016, ao somarem 1.863, um crescimento de 45% em relação ao ano anterior, segundo a Serasa Experian. O volume é o maior para o acumulado do ano desde 2006, após a entrada em vigor da Nova Lei de Falências, em junho de 2005). Segundo Barros, não vão faltar recursos para alimentar os fundos de créditos estressados, pois esse é um tipo de aplicação que o investidor estrangeiro tem bastante interesse.

Especialização – No caso específico das fundações de previdência, elas não possuem estruturas internas com capacidade e experiência na cobrança de ativos em default, fazendo com que empresas especializadas entrem no radar. A Ipanema, por exemplo, possui um banco de dados com 55 milhões de CPFs e CNPJs, um sistema proprietário de gestão e acordo com cerca de 400 escritórios de advocacia e agências de cobrança espalhados pelo país para prestar esse serviço e fazer a gestão desses ativos. Já o BTG Pactual investiu R$ 23 milhões na compra de banco de dados e sistemas de escala para a Enforce, que conta atualmente com uma equipe de 58 pessoas. “Notamos um interesse maior dos fundos de pensão pelo mercado de NPL [sigla em inglês para credito não performado], pois ele gera liquidez imediata”, diz Barros.
Um modelo que as empresas de recuperação acreditam que deve fazer mais sentido para os fundos de pensão é o de divisão de lucros, em que as fundações vendem a carteira para a gestora, mas divide esta divide os resultados positivos futuros da recuperação dos créditos. O risco, porém, é da empresa compradora da carteira: se o resultado do portfólio for negativo, ele será totalmente absorvido pela gestora. “Em mercados menos maduros, há o desafio de se chegar em um preço em que os interesses do vendedor e do comprador convirjam. A divisão de lucros parece ser um meio de chegar a um preço bom para as duas partes”, diz Câmara, do BTG. Para o executivo, as carteiras com créditos vencidos há mais tempo devem ser as primeiras a serem vendidas. Isso porque, neste estágio, elas já costumam ter passado por um trabalho e esforço de recuperação da própria fundação e a probabilidade de recuperação é menor do que a de créditos vencidos há menos tempo.

Cessão – Em um primeiro momento, as fundações parecem estar mais dispostas a ceder as suas carteiras para um gestor especializado, do que as vender. Pelo menos por ora. Foi o caso do Postalis, que tinha uma carteira inicialmente com um valor de R$ 2,4 bilhões em créditos vencidos que estavam contabilizados a zero no balanço. O fundo de pensão dos funcionários dos Correios avaliou várias opções e optou por contratar três empresas especializadas para fazer a gestão desses ativos: as gestoras Jive, Cadence e Novero. Para tanto, foram montados, no fim do ano passado, seis fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) não padronizados para abarcar os ativos vencidos. Estão nesse bolo ativos do BVA e da Canabrava, por exemplo, empresas em que a fundação tem não só papéis de dívida como participação acionária - aplicações pouco ortodoxas feitas em gestões passadas.
“Fomos procurados por empresas de recuperação para comprar a carteira, mas avaliamos que havia a possibilidade de recuperarmos um valor maior na cessão da carteira para recuperação do que na venda”, diz Christian Schneider, diretor de investimentos do Postalis. Segundo ele, nada impede, no entanto, que isso seja repensado a depender do desempenho das gestoras com a recuperação dos ativos. “Se tenho a possibilidade de recuperar 50% da carteira, por que eu venderia por 20% do valor de face?”, questiona.
A administradora dos fundos, a Intrader, com o auxilio de pareceres da PwC e do escritório de advocacia Bichara, avaliou em R$ 1,1 bilhão o valor das carteiras, o que permitiu uma recuperação contábil de aproximadamente R$ 890 milhões do plano de benefício definido (BD) e de R$ 300 milhões do plano de contribuição variável (CV), já que esses ativos estavam marcados a zero anteriormente. Schneider diz que os efeitos da medida já são sentidos. “Não temos equipe para fazer esse tipo de cobrança, então demorávamos muito para fazer a negociação. Hoje isso é feito com muito mais agilidade. Um desses fundos já tem cinco propostas de acordo encaminhadas”, conta. De acordo com as novas regras de governança da fundação, essas propostas passam pelo comitê de investimentos, diretoria de investimentos e diretoria executiva para serem aprovadas, além de uma checagem pelo Ministério Público, já que são ativos que fazem parte de ações judiciais.
O Postalis espera que ao fim de quatro anos a fundação tenha o valor total das carteiras monetizado. Isso porque a recuperação de ativos muitas vezes envolve pagamentos recebidos em ativos imobilizados, como imóveis. “Essa é a segunda etapa desse processo de recuperação, que estamos estudando como fazer”, diz o diretor da fundação. A gestão desse tipo de ativo também costuma estar no foco das empresas de recuperação.
A Petros já havia seguido por caminho semelhante em 2015. O segundo maior fundo de pensão do país contratou três gestores para a recuperação de carteiras de crédito avaliadas em R$ 2,1 bilhões: Brasil Plural, Canvas e Polo Capital. O objetivo era de que o trabalho de recuperação de ativos vencidos ganhasse maior agilidade e eficiência com a nova estrutura, tendo assim um maior volume de recuperado em um tempo menor. Procurada, a Petros não deu informações sobre os resultados das carteiras.

 

Prece começa processo direto de negociação com inadimplentes

A Prece, fundação que já foi apontada algumas vezes como suspeita de investimentos irregulares, inclusive relacionados ao ex-deputado Eduardo Cunha, está preparando algumas ações para limpar suas carteiras de ativos “podres” e ilíquidos. A frente desse processo está a nova diretoria financeira da entidade, que desde o dia 21 de março está sob o comando de Antonio Carneiro Alves.
Alves está na Prece há dez anos, exercendo anteriormente o cargo de gerente de investimentos. Ele conta que a fundação possui estoque de cerca de R$ 1 bilhão em investimentos “podres”, grande parte deles sem garantias e que já foram baixados contabilmente dos seus ativos. Em cima dessas alocações, feitas de forma equivocada no passado e sendo cobradas atualmente por via judicial, a Prece pretende começar um processo de negociação direta com os devedores para tentar recuperar pelos menos um percentual ainda neste ano. “Se de um ativo registrado como 100, mas que já está zerado na nossa contabilidade, nós conseguirmos recuperar 10 ou 20 já é muito bom”, explica Alves. “De 1 bilhão seriam 100 ou 200 milhões que entrariam agora no caixa da fundação”.
Ainda de acordo com ele, a fundação também está se desfazendo de alguns ativos ilíquidos, como imóveis e títulos de empresas que pagam menos do que o atuarial. Nos últimos meses, os jornais cariocas têm estampado anúncios de venda de imóveis da Prece. Segundo o último boletim da fundação, as vendas são motivadas não apenas pela busca de liquidez mas também pela necessidade de enquadrar a entidade à legislação vigente, que estabelece o máximo de 8% da carteira em imóveis. Atualmente, a Prece tem cerca de 15% da carteira investidos no segmento imobiliário. Ainda de acordo com o último boletim, a fundação conseguiu vender dois imóveis em 2016, no valor de R$ 4,1 milhões.

Novos títulos problemáticos – O objetivo dessas duas políticas, a recuperação dos créditos “podres” em estoque através da negociação direta com os devedores e a venda de ativos ilíquidos, é preparar a Prece para as demandas deste ano, principalmente em decorrência de um Plano de Demissões Voluntárias (PDV) que a patrocinadora está iniciando e do vencimento de novos títulos problemáticos que acontecem nesse início de 2017. Segundo Alves, esses novos títulos problemáticos são aplicações feitas pela entidade antes de 2007, que estão vencendo agora e já estão em “default”. “Precisamos fazer caixa para encarar esses dois eventos”, explica o diretor de investimentos da entidade.
A Prece tem atualmente um patrimônio de R$ 1,25 bilhão, dos quais R$ 290 milhões alocados em um plano de Benefício Definido (BD) e R$ 960 milhões em um segundo plano de Contribuição Variável (CV). Os títulos em default devem impactar o plano BD em cerca de R$ 80 milhões, reduzindo-o para cerca de R$ 210 milhões, e o CV em cerca de R$ 140 milhões, reduzindo-o para R$ 820 milhões. No total, a carteira da fundação deve descer para cerca de R$ 1,03 bilhão, mas Alves acredita que poderá elevá-la novamente para o patamar de R$ 1,3 bilhão, até o final do ano, pela combinação das políticas de recuperação de créditos “podres”, venda de ativos ilíquidos e busca de rentabilidade das outras carteiras sadias.

Carteira – A Prece, patrocinada pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), aloca atualmente 58% da sua carteira em renda fixa, 20% em renda variável, 15% em imóveis e 7% em empréstimos aos participantes. Segundo Alves, os recursos novos que entrarem no caixa da fundação em decorrência da recuperação de créditos “podres” e da venda de ativos ilíquidos serão redistribuídos por essas carteiras. “Ainda não definimos como será a nova alocação, mas o importante são recursos que estavam sem rentabilidade e que passarão a ter rentabilidade”, diz.


VídeosOnline

Mais lidas de Investidor Institucional em 3 meses

Mais lidas de InvestidorOline em 1 mês