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Bradesco retoma liderança na custódia

Edição 293

Com incorporação dos ativos do HSBC, banco da Cidade de Deus fica ligeiramente à frente do Itaú

Ranking Geral (em pdf)

O mercado brasileiro de custódia de ativos de terceiros passou por mudanças importantes nos últimos doze meses encerrados em março de 2017, com o Bradesco retomando a liderança das mãos do Itaú após a compra do HSBC, e com players globais, como Citi e Deutsche, reduzindo suas operações locais. De acordo com o ranking da Anbima, a primeira colocação no segmento voltou novamente para o Bradesco, que havia perdido o posto no ano passado para o Itaú. O Bradesco assumiu a liderança do ranking com um crescimento de 29,28% nos doze meses até março de 2017, para R$ 1,397 trilhão, seguido de perto pelo Itaú, que registrou evolução de 19,80% em seus ativos sob custódia, para R$ 1,348 trilhão. Nas posições seguintes, até a sétima colocação, não houve alterações em relação ao ranking anterior.
O salto do Bradesco é resultado da compra da operação brasileira do HSBC – em março de 2016 os ativos sob custódia do HSBC somavam R$ 115,94 bilhões, o que colocava o banco estrangeiro como o oitavo maior player do mercado brasileiro de custódia, enquanto os do Bradesco alcançavam R$ 1,080 trilhão na época. Para o diretor de custódia do Bradesco, André Bernardino, a incorporação dos ativos do HSBC foi o principal fator que contribuiu para o crescimento dos ativos custodiados do banco no período analisado. “Tivemos entradas próximas de R$ 93 bilhões de investidores não residentes que vieram com a compra do HSBC. Esse volume se concentrou principalmente na área de administração de fundos, mas acaba tendo um efeito na parte de custódia também”, pondera Bernardino.
Além disso, o diretor do banco reconhece que a decisão de players importantes de reduzirem sua atuação no mercado doméstico, como foi o caso de casas como Citi e Deutsche, além do próprio HSBC, teve peso importante para o avanço do Bradesco no segmento de custódia. O Citi apresentou queda de 9,37% na custódia de ativos no mercado local, para R$ 123,55 bilhões (embora tenha crescido 13,09%, para R$ 760,89 bilhões, no ranking geral), enquanto o Deutsche teve uma baixa de 79,70%, para R$ 2,09 bilhões.
O bom desempenho do Bradesco deve prosseguir nos próximos meses, prevê Bernardino. Segundo o executivo, até o final de julho, a expectativa é que entrem R$ 30 bilhões adicionais na área de custódia da instituição financeira. “Esse crescimento previsto será orgânico, uma vez que os ativos do HSBC já foram todos incorporados à base do Bradesco”, diz o profissional. Ele ressalta que prossegue a busca por novos prestadores de serviços por parte de investidores que eram atendidos por casas globais que têm reduzido as operações no Brasil. “O mercado de custódia no Brasil tem se consolidado em poucos players, com algumas casas recebendo as posições de instituições que estão deixando a atividade”.
Em relação aos fundos de pensão, que tiveram aumento de 14,96% nos ativos custodiados junto ao Bradesco, para R$ 248,65 bilhões, o diretor da área explica que esse incremento se deve essencialmente à boa performance tanto do mercado de renda fixa como do de renda variável no período analisado. “Nossos mercados se recuperaram bem nos últimos meses, e esse crescimento nos ativos custodiados das fundações veio da base que já era atendida pelo banco”, afirma Bernardino.

Segmentação – No Itaú, o diretor de ‘security services’, Roberto Teixeira de Camargo, credita o crescimento próximo de 20% na custódia à atuação segmentada em diferentes nichos – fundações, gestores, bancos e private. “Adotamos essas estratégias bem focadas em cada um dos públicos desde agosto do ano passado, para conseguir obter os melhores resultados dessas operações, com equipes comerciais específicas”, pontua Teixeira. Antes da adoção do modelo por nicho, o banco trabalhava com o conceito monoproduto, com uma equipe responsável por todas as operações da custódia local, outra que cuidava da custódia internacional, e com essa mesma distribuição entre as classes de ativos, com uma equipe voltada para a custódia de ativos de renda fixa, com outra à cargo das ações. O diretor conta também ter notado nos últimos meses um aumento da procura de clientes que eram atendidos pelo Citi em busca de novos prestadores de serviços diante da redução na atuação do banco global localmente.
O executivo do Itaú diz ainda que o ambiente mais positivo para o mercado de capitais nos últimos meses favoreceu a área de ‘security services’ do banco. O profissional fala que, conforme a Selic recua, os investidores deixam os instrumentos mais básicos do mercado, como títulos públicos e fundos DI, e partem em busca de fundos mais complexos, como os multimercados, que geram mais receita para a custódia do banco. Para o segundo semestre, como o mercado acredita que a taxa básica de juros seguirá sendo cortada pelo Banco Central (BC), o diretor do Itaú espera que a tendência observada durante o primeiro semestre, de migração para instrumentos mais sofisticados, também prossiga ao longo dos próximos meses de 2017.
Apesar de notar um aumento da procura dos investidores por produto mais complexos, o executivo diz que o Itaú tem sido bastante seletivo para assumir a custódia e administração de fundos estruturados, como FIPs, FIIs e FIDCs. “Essa nossa postura está muito vinculada com a assimetria entre o risco que o administrador assume versus a receita recebida pelo serviço prestado”, pontua Teixeira.

Exterior – Ainda na linha da busca dos investidores por produtos mais complexos, Teixeira destaca a conclusão da implantação durante o ano passado de uma plataforma de serviços de custódia com o foco nos clientes locais que querem alocar parte de seus recursos em fundos offshore. “Era uma demanda crescente que recebíamos dos investidores; observamos cada vez mais o investidor local buscando opções de ativos no exterior”. Essa internacionalização do portfólio de parte dos investidores brasileiros, principalmente de gestores de recursos em busca de alpha para suas carteiras, ainda não se nota de maneira relevante entre os fundos de pensão atendidos pelo banco, conta o executivo do Itaú. “Observamos que no Brasil os gestores enfrentam certa limitação nos ativos disponíveis para gerar alpha para seus multimercados, e por isso eles vão atrás de estratégias via fundos offshore”, avalia Teixeira.
Sobre o tema custódia internacional, o diretor afirma também que nos últimos meses o Itaú procurou reforçar sua atuação regional, com a oferta dos serviços de custódia e administração fiduciária em países vizinhos ao Brasil, como Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai. “Até em função da aquisição do CorpBanca reforçamos bastante a atuação no Chile e na Colômbia”. Teixeira revela que o banco está avaliando começar a oferecer os serviços de custódia também na Argentina, por conta da demanda crescente dos investidores do país vizinho para seus ativos offshore.

Citi – Roberto Paolino, diretor responsável pela administração dos fundos no Citi, afirma que a queda de 9,37% do banco no mercado doméstico nos doze meses encerrados em março de 2017, para R$ 123,55 bilhões, se deve à “diminuição dos esforços no segmento”. Essa diminuição dos esforços em relação ao mercado local decorre das obrigações que o regulador impõe ao administrador e custodiante de fundos no âmbito doméstico, que tem muitos riscos para a remuneração oriunda dessa atividade na percepção do banco, comenta seu diretor.
Em sintonia com a maior seletividade do Itaú para os fundos estruturados, Paolino também cita esses fundos mais sofisticados da indústria brasileira, e a forma como o regulador delega as responsabilidades, como uma das razões para que o banco tenha se afastado da custódia e administração de ativos no mercado doméstico. As tomadas de decisões de um gestor de um fundo estruturado podem levar, no Brasil, a questionamentos sobre o porquê de o administrador ter permitido tais operações, o que na visão do Citi foge do arcabouço no qual está o prestador de tais serviços, avalia o executivo do banco global.
“Atuamos com custódia em 63 países, mas sempre como prestadores de serviço. Claro que temos a responsabilidade fiduciária sobre os ativos, mas é importante diferenciar a responsabilidade fiduciária da tomada de decisões”, ressalta Paolino. “Entendemos que essa responsabilidade sobre a tomada de decisões não se justifica dentro do contrato do prestador de serviços”.
Em outubro do ano passado o Citi vendeu suas operações de varejo no país ao Itaú, por R$ 710 milhões. Paolino ressalta que a operação, ainda no aguardo de aprovação do regulador, envolve a parte de distribuição dos fundos para pessoas físicas, realizada pelo Citibank SA, e não considera a área de administração e custódia, que permanece sob a responsabilidade da DTVM do banco.

Outras posições – Em relação ao ranking anterior, a BB DTVM apresentou crescimento de 12,06%, para R$ 882,60 bilhões, mantendo a terceira posição, seguida pelo Citi na quarta colocação, com incremento de 13,09%, para R$ 760,89 bilhões. O Santander continuou em quinto, com evolução de 17,66%, para R$ 337,44 bilhões; o JP Morgan em sexto, com alta de 11,31%, para R$ 208,91 bilhões; e a Caixa, na sétima posição, com avanço de 23,63%, para R$ 192,84 bilhões.
Já na oitava colocação, com a saída do HSBC do ranking, aparece o Safra, que subiu uma posição em relação ao levantamento de 2016, com aumento de 27,45% em seus ativos sob custódia, para R$ 76,88 bilhões.
O BNY Mellon, que em 2016 estava na décima primeira posição, subiu para a nona colocação em 2017, após apresentar forte crescimento de 78,53%, para R$ 62,31 bilhões. Completa os dez primeiros colocados o BNP Paribas, que galgou duas posições em relação ao ranking anterior após registrar aumento de 60,68% nos ativos custodiados, para R$ 50,92 bilhões.

Laboratório de blockchain

O diretor da área de ‘security services’ do Itaú ressalta que as novas tecnologias estão cada vez mais presentes no mercado de custódia, com as grandes casas em busca de simplificação de processos e redução de custos em um segmento que envolve a transação de altos volumes financeiros. O Itaú já conta em suas estruturas internas desde o final de 2016 com um laboratório de ‘blockchain’, o conceito tecnológico que dá sustentação ao negócio das ‘bitcoins’, as moedas virtuais que vem ganhando cada vez mais espaço nos mercados. Teixeira explica que o laboratório criado visa justamente o estudo das novas tecnologias para entender como elas podem ser utilizadas nos negócios do dia a dia da instituição financeira.
O laboratório de ‘blockchain’ do Itaú tem concentrado seus trabalhos no conceito ‘peer-to-peer’, (ponto a ponto, em tradução livre), ou P2P, que se trata de uma arquitetura aberta e descentralizada de uma rede de computadores, onde cada máquina pode realizar tanto a função de um servidor como também a de um cliente ao mesmo tempo. “Começamos a fazer algumas iniciativas com esses conceitos do ‘blockchain’ no mercado de garantias, e pretendemos expandir para a área de custódia e administração”, afirma Teixeira.


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