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Em compasso de espera

Edição 293

Crise política reduz negócios no mercado de dívidas corporativas, as que ainda se preparavam para emitir suspenderam os planos 

Mercado de Capitais em Maio - Doméstico (em pdf)

Mercado de Capitais em Maio - Externo (em pdf)

Mercado de Capitais Jan/Maio - Doméstico (em pdf)

Mercado de Capitais Jan/Maio - Externo (em pdf)

As emissões de ações e de dívidas no mercado de capitais vinha forte neste primeiro semestre, após dois anos difíceis nessa seara. Até que os investidores e agentes de mercado foram novamente pegos de surpresa pela crise política, que pode ameaçar a aprovação no Congresso de reformas necessárias à retomada sustentável da economia. As empresas que já estão com o processo de captação na rua vêm mantendo o cronograma das ofertas, mas as que ainda estavam estruturando as operações sinalizam que devem aguardar até que o cenário fique mais claro.
“Tínhamos diversas operações de debêntures sendo analisadas e as empresas pediram para segurar”, conta Ricardo Carvalho, diretor sênior de finanças corporativas da Fitch Ratings. Os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) confirmam esse movimento. Diante da piora do cenário político, as ofertas de renda fixa e variável no mercado doméstico somaram R$ 6,3 bilhões em maio, volume 34% menor do que o observado em abril, interrompendo a trajetória de crescimento dos últimos meses. “A crise política traz mais volatilidade ao mercado, o que pode levar a postergação de alguns planos”, diz Bárbara Mattos, diretora de crédito da Moody’s.
No acumulado de janeiro a maio, as empresas captaram R$ 42,4 bilhões no mercado doméstico. Destes, R$ 29,3 bilhões foram via emissão de títulos de dívida, montante 9% maior do que em igual período de 2016 (não incluem debêntures de leasing). Os outros R$ 13,1 bilhões foram via emissões de ações, entre ofertas iniciais (IPO) e subsequentes (follow-on), frente a parcos R$ 3,5 bilhões no mesmo período do ano passado. “Há muito tempo não víamos o mercado de ações tão animado quanto neste começo de ano. Agora, as operações que ainda não foram registradas estão esperando uma nova janela de mercado”, diz Vanessa Fiusa, sócia e advogada especializada em mercado de capitais do Mattos Filho.

Aguardar – Segundo ela, os bancos coordenadores de emissões estão aconselhando seus clientes corporativos a usar o tempo ao seu favor e aguardar. Houve recuperação também da emissão de bônus internacionais: US$ 16,6 bilhões até maio, o dobro do volume captado no mesmo período do ano passado.
O mês de maio ficou marcado pela delação dos controladores da JBS à operação Lava Jato, que trouxe denúncias contra o presidente Michel Temer e importantes aliados. A primeira reação do mercado foi de pânico, com a bolsa de valores tendo que acionar o “circuit breaker” pela primeira vez desde 2008, suspendendo provisoriamente as negociações. De lá para cá os ânimos se acalmaram. “A percepção é de que as incertezas atuais não deletaram os sinais positivos em relação a variáveis econômicas importantes”, diz Lauro Campos, superintendente de análise de crédito da Sulamérica Investimentos. Segundo ele, os investidores ainda estão receptivos a novas emissões.
Fabiano Milani, advogado especialista em companhias abertas do escritório Stocche Forbes, esteve recentemente conversando com investidores internacionais no road show de um cliente. Ele relata que é grande a dificuldade de se explicar a atual situação política do país lá fora, mas que os ativos brasileiros continuam no radar. O advogado destaca que a percepção lá fora é de o país tem instituições sólidas e que estão funcionando para enfrentar a crise. Tanto é que, em maio, os estrangeiros aplicaram de forma líquida (aportes menos saques) R$ 2 bilhões em ações brasileiras, segundo dados da B3, companhia resultante da fusão da BM&FBovespa com a Cetip. No acumulado do ano até 12 de junho, o saldo é positivo em R$ 5 bilhões.
O protocolo de pedido de IPO feito pelo Carrefour no fim de maio parece ser a prova de que o setor privado ainda está confiante na recuperação da economia. O Atacadão, controlador da subsidiária da varejista no Brasil, apresentou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) um prospecto preliminar para lançar ações no país, mas ainda sem uma faixa indicativa do preço para os papéis. O banco Société Générale avaliou, em relatório da equipe de análise, que a venda de 20% do capital da empresa pode levantar 2 bilhões de euros (equivalente a pouco mais de R$ 7 bilhões). O mercado local, no entanto, tem estimado um valor maior: entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões.

Preço – Tudo agora é uma questão de preço. O cenário mais incerto não paralisou o mercado, mas pode colocar o risco maior no preço das novas emissões. Milani, do Stocche Forbes, diz que as ofertas de ações em andamento devem prosseguir porque já costumam ir a mercado com investidores âncoras, que fecham um acordo prévio para comprar uma fatia da operação, mas que um desconto no preço das ações pode ocorrer. “Mas quem ainda estava planejando o IPO agora está esperando”, diz o advogado.
Na renda fixa, o investidor pode exigir mais prêmio nas próximas emissões para fazer frente ao maior risco do ambiente macroeconômico, diz Carvalho, da Fitch. Segundo ele, o mercado deve voltar a ver um crescimento gradual das emissões de dívida se a crise continuar no patamar que está e não se agravar. “A leitura do mercado é de que há incertezas, mas ele está aceitando mais risco”, diz. Ele observa que há um volume razoável de dívida a vencer no curto prazo, o que por si só já deve garantir a retomada do ritmo do mercado. Segundo dados da Anbima, há R$ 58 bilhões em dívidas para vencer ao longo do segundo semestre.
Campos, da Sulamérica Investimentos, afirma que a liquidez do mercado ainda é muito grande, apesar da crise política. E que isso tem pressionado os spreads dos títulos de renda fixa. Ele lembra que muitos investidores, como fundos de investimentos, ficaram com seus caixas represados do período recente de mercado avesso ao risco, o que somado à queda da Selic faz com que eles busquem mais o crédito privado. Exemplo disso foi a recente emissão de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Volkswagen, que teve demanda de quase R$ 2,5 bilhões. O excesso de demanda fez com que o rendimento do papel, que começou a oferta em 107% do CDI, fechasse a operação em R$ 105,4%.

Juros – As companhias vinham aproveitando o ciclo de queda da taxa de juros básica da economia e um mercado mais otimista para fazer o refinanciamento de sua dívida, trocando títulos emitidos nos últimos anos com um custo alto por outros com custo menor. Marina Anselmo, sócia do escritório Mattos Filho especializada em mercado de capitais, lembra que no ano passado o mercado estava muito restrito, então as empresas emitiram dívida com prazo curto e taxa alta. O acesso ao mercado, porém, ainda é restrito às empresas que já são conhecidas dos investidores, observa Carolina Cimenti, analista da Moody´s.
Muitas operações subsequentes de emissão de ações vistas no primeiro semestre teve como objetivo desalavancar o balanço das companhias. “Algumas empresas trocaram credor por acionista”, diz Fiusa, do Mattos Filho. Dos R$ 13,1 bilhões emitidos em ações no acumulado do ano até maio, R$ 9,6 bilhões foram “follow-ons”.

Redução do juros – A queda da Selic também tem impacto significativo sobre os caixas das empresas. Segundo Carvalho, da Fitch, esse é um fator crucial para a recuperação das empresas. A agência de classificação de risco fez um estudo que mostra que, considerando apenas o atual ciclo de redução dos juros, que levou a Selic do pico recente de 14,25% para os 10,25%, a parcela do Ebitda (sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) gasta no pagamento de juros de dívidas recua de 80% para 64%. A simulação considera um crescimento nulo do Ebitda e alavancagem média (medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda) de quatro vezes. “Havia um excesso de caixa sendo consumido para o pagamento de juros que agora pode ser direcionado para a redução do endividamento”, diz o diretor da Fitch.
Anselmo, do Mattos Filho, lembra que há até pouco era comum ouvir no mercado financeiro que a foto do Brasil estava feia, mas que o filme era bonito. Em encontro com investidores em Nova York no começo de junho, porém, o que se ouvia era justamente o contrário: a foto do país estava ficando bonita, mas o filme nem tanto.


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