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Oportunidades à vista

Edição 293

Márcio Appel, gestor dos fundos da Adam Capital, ainda enxerga preços atraentes nos mercados de bolsa, no Brasil e também em outros países

O mercado, seja no âmbito doméstico ou internacional, apresenta atualmente boas oportunidades de investimento, na avaliação de Márcio Appel, fundador e principal gestor dos fundos da Adam Capital. Ex-diretor da Safra Asset Management, onde foi responsável pela gestão dos fundos entre 2008 a 2015, Appel acredita que, diante da fraqueza da atividade econômica, a inflação seguirá em queda, aumentando o espaço para que o fechamento dos juros locais prossiga. Ele também espera ganhos para quem se posicionar no mercado cambial, com uma provável valorização do Real à frente, por conta de uma demanda doméstica fraca que deve manter positivo o saldo em conta corrente. Para o gestor, o ruído político das últimas semanas não tem força para interferir na dinâmica macroeconômica desses mercados – as apostas de longo prazo da Adam não foram afetadas pela turbulência oriunda de Brasília. Na avaliação do gestor, os recentes eventos políticos inclusive chegaram a abrir algumas janelas de oportunidade no mercado, ainda que acompanhadas de maior nível de volatilidade.
No mercado global, a despeito das bolsas dos Estados Unidos estarem renovando a cada dia suas máximas históricas, Appel ainda vê com bons olhos um posicionamento no mercado acionário americano. O profissional destaca a importância de os gestores de multimercados adotarem posicionamentos que fujam do consenso do mercado, como a própria exposição que os fundos da Adam assumiram nos últimos meses nas bolsas globais.
Mesmo na Bovespa, observa o gestor, o investidor ainda consegue encontrar papéis com preços atraentes, principalmente em setores que se beneficiam da queda da taxa de juros, como os de concessões e o financeiro. Por outro lado, segmentos da bolsa brasileira mais vinculados ao nível da atividade econômica têm sido evitados pela asset. Veja os principais trechos da entrevista do responsável pelos fundos da Adam.

Investidor InstitucionalO mercado apresenta atualmente boas oportunidades de investimento, seja no âmbito doméstico ou no internacional?
Márcio Appel – Sem dúvida, há oportunidades nos dois ambientes, tanto no doméstico como também no internacional. No exterior gostamos bastante do mercado de ações de forma geral, e no mercado doméstico seguimos com as mesmas teses que carregamos há um bom tempo – a convergência da inflação é um processo vinculado à fraqueza da atividade econômica; acredito que o país vai ter dificuldades para apresentar uma recuperação rápida, então a inflação deve continuar caindo, o que consequentemente abre espaço para que ainda ocorra uma queda significativa dos juros, movimento que tende a prosseguir independentemente do ruído político. No câmbio nossa tese de investimento também vai um pouco nessa linha, acreditamos na apreciação do Real em decorrência da fraqueza econômica, a demanda doméstica permanece fraca, o que faz com que o saldo de conta corrente ainda fique positivo, permitindo a valorização da moeda brasileira. Essas duas posições, em juros e câmbio, ainda achamos bastante interessantes no mercado local, e em bolsas e com exposições diversificadas em moedas no exterior.

IIAs bolsas nos Estados Unidos ainda apresentam boas oportunidades de investimento, apesar de estarem renovando suas máximas históricas a cada dia?
MA – Acreditamos que ainda é possível encontrar preços muito atraentes nas bolsas americanas.

IIO processo de aperto monetário que está sendo promovido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) pode ter alguma influência para o mercado acionário da região?
MA – O Fed não influencia o mercado de bolsa dos Estados Unidos. Ao contrário do que algumas pessoas imaginam, o processo de aperto monetário ocorre de forma simultânea ao fortalecimento da economia, por isso normalmente ele é benéfico e não maléfico ao mercado de ações. Existe uma concepção errada que muitos têm, de que a alta dos juros costuma fazer com que a bolsa apresente um desempenho negativo. Isso pode ser verdade no dia em que eventualmente há um surpresa com uma alta mais forte dos juros, mas o processo de aperto monetário geralmente é acompanhado de valorização das bolsas, já que é um sinal de que a economia está aquecida.

IIEm termos setoriais, quais são as preferências da Adam no mercado global de ações?
MA – Gostamos de companhias de propriedade intelectual de forma geral, seja entretenimento, tecnologia, entendemos que são ativos que têm uma vantagem competitiva. No preço correto são setores que achamos interessantes.

IIAs posições que os fundos da Adam carregam tendem a permanecer nos próximos meses?
MA – É difícil dizer. Não está claro para mim que esse processo de afrouxamento monetário no Brasil e de valorização do Real estará totalmente incorporado aos preços até o final do ano. Pode ser que seja uma tendência que siga ao longo do ano que vem. Fazemos as posições nos fundos com um horizonte de investimento de um ano, e acredito que todas as posições ainda devem nortear o portfólio por um bom tempo.

IIQuais são os principais riscos no seu radar atualmente?
MA – O mercado nos parece bastante confortável com os riscos de forma geral. Dificilmente ele será capaz de dizer quais os principais riscos que preocupam antes que os possíveis eventos ocorram. Mas temos posições no portfólio que tendem a amortecer eventuais riscos, como por exemplo, em moedas fortes, como o franco suíço. Não dá para dizer antecipadamente os riscos que podem vir a afetar os preços dos ativos, mas quando o mercado fica com expectativas tão pequenas sobre a ocorrência de eventos extraordinários, é bom ter posições mais protegidas, que defendam o portfólio nesses casos.

IIExiste algum evento extraordinário com possibilidade de ocorrer que faz com que a Adam mantenha ativos para proteger seu portfólio?
MA – Pode ser, por exemplo, uma virada no crescimento dos Estados Unidos. Não é o nosso cenário base, mas é sempre um risco, principalmente para quem tem posições em ações no exterior, por isso é uma questão que temos acompanhado de perto.

IINo mercado brasileiro, havia um otimismo excessivo com a precificação da aprovação das reformas previdenciária e trabalhista?
MA – Não acho que tenha sido o caso. Tivemos um ruído elevado, mas o que o mercado fez foi precificar antecipadamente a convergência dos juros. Esse processo de convergência dos juros ficou mais lento por causa do ruído político, e o mercado já fez uma parte do ajuste. Houve também a queda no preço das commodities, o preço do minério vem se enfraquecendo nos mercados internacionais, o que afeta alguns nomes da bolsa brasileira, mas nossa leitura é de que esses movimentos nas matérias-primas ainda são circunstanciais. Acredito que, à medida que fique claro que o processo de afrouxamento monetário do Banco Central vai prosseguir, um pedaço da bolsa brasileira tende a se beneficiar.

IIQuais setores da bolsa poderiam se beneficiar nesse cenário esperado?
MA – Talvez a parte de concessões, e mesmo o setor bancário, são segmentos que acreditamos que estão com a relação de preços mais adequada. Outros setores da bolsa, como aqueles mais vinculados ao nível da atividade, nos preocupam mais. Sobre a parte do Ibovespa mais vinculado ao setor de commodities, o gestor precisa ter uma opinião mais forte sobre o preço das commodities, e não queremos entrar nessa seara.

IIEntão a Adam ainda enxerga boas oportunidades para os investidores aproveitarem também na bolsa brasileira?
MA – Existem algumas oportunidades na bolsa brasileira. Entendo que não é o melhor veículo para capturar os ganhos disponíveis no mercado doméstico, mas também não estamos vendidos na Bovespa.

IIA incerteza gerada pela crise política, que aumentou a volatilidade dos mercados, acaba sendo até mesmo benéfica para um gestor de multimercados, que consegue encontrar mais oportunidades de investimento em comparação com um cenário de alta previsibilidade?
MA – O que acredito ser importante é o gestor ter uma clareza do cenário que não seja compartilhada pelo resto do mercado. Obviamente um evento totalmente inesperado como a delação da JBS gerou uma mudança de patamar muito significativa da volatilidade, o que afetou o mercado de forma coletiva. Acho que hoje sem dúvida o mercado tem oportunidades que não havia antes desse evento, só que com um nível de ruído maior.

IIA Adam aproveitou a volatilidade das últimas semanas para alterar o portfólio?
MA – Ao contrário de outros gestores, não operamos nunca no curto prazo. Por isso esse tipo de estresse no mercado não muda muito a nossa vida. Ajustamos algumas posições para resguardar o risco do fundo, mas a pergunta que fazemos é se esses eventos são capazes de alterar nossas posições de longo prazo. E se eles não alteram nossas posições ao longo do tempo, trabalhamos para nos beneficiar da convergência do ambiente com o cenário que estamos esperando. E esses eventos políticos recentes não alteraram a visão de longo prazo da Adam.

IIO senhor poderia citar alguma aposta que fugia do consenso do mercado adotada pelos fundos da Adam recentemente?
MA – O mercado internacional é um exemplo disso, foi uma posição que montamos que não é compartilhada por muitos agentes do mercado. Foi uma exposição que nos deu bastante resultado, e que não parecia óbvia para outros gestores, ainda que para nós fosse muito clara.

IIO que mais influencia a Adam a adotar essas posições dissonantes do resto do mercado é uma forte convicção sobre a tese de investimento?
MA – Acima de tudo é uma questão de preço. O preço dos ativos nas bolsas internacionais nos parecia muito descontado se compararmos com as taxas de juros equivalentes em diversos países. Acho que boa parte do mercado não fez esse ajuste ao longo do tempo, e continua trabalhando com métricas de valuation baseadas em taxas de juros que serão muito diferentes daqui em diante. A maior parte do mercado ainda não fez esse ajuste, e quando os preços estiverem corretos não vamos mais ter essa posição.

IIO senhor entende que os multimercados estruturados vem ganhando cada vez mais espaço no portfólio dos investidores institucionais nos últimos anos, à despeito do atual processo de queda na taxa de juros?
MA – Acredito que sim, apesar de ainda ser pouco. Por algum motivo a legislação trata os multimercados com um nível de risco maior na comparação com outros ativos equivalentes, e coloca restrições a esse tipo de investimento que talvez não devessem existir. Os fundos de investimento em participações, por exemplo, são tratados da mesma maneira que os multimercados, e na verdade do ponto de vista de risco e liquidez eles têm perfis muito distintos. Apesar disso aos poucos os multimercados vem ganhando participação e acredito que vão continuar ao longo do tempo.

IIAté pelos problemas recentes, os multimercados devem ganhar espaço na carteira das fundações em relação aos FIPs?
MA – Durante muito tempo os fundos de pensão preferiram os FIPs em relação aos multimercados, até por serem veículos que competiam pela mesma fatia do portfólio das fundações. Hoje vemos que em muitos casos não foi a melhor decisão ter investido nos FIPs como foi feito, os multimercados teriam dado resultados superiores. Acredito que ao longo do tempo isso será corrigido, com uma legislação possivelmente mais simétrica do que é hoje.


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